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DHA e qualidade do sono infantil: revisão das evidências disponíveis

O ácido docosa-hexaenoico (DHA) é encontrado em altas concentrações no cérebro e integra fosfolipídios das membranas neuronais, participando de mecanismos relacionados ao neurodesenvolvimento e à neurotransmissão. Essa plausibilidade biológica tem motivado a investigação da possível relação entre DHA e regulação do sono. Contudo, esse racional mecanístico não comprova eficácia clínica, e as evidências disponíveis sobre ácidos graxos ômega-3 e sono ainda são heterogêneas e devem ser interpretadas considerando o delineamento e as limitações dos estudos1,2.

Montgomery P et al. (2014)3 utilizaram dados vinculados ao DOLAB Study, um estudo que avaliou a relação entre ácidos graxos ômega-3 e desempenho em leitura em crianças de 7 a 9 anos, para investigar especificamente os desfechos de sono infantil. O artigo incluiu uma etapa epidemiológica e uma análise exploratória. Na amostra total do estudo (n=362), não houve diferença estatisticamente significativa nas medidas subjetivas relatadas pelos pais. Em uma subamostra exploratória com actigrafia, inicialmente composta por 43 crianças selecionadas aleatoriamente, foi observado um aumento de aproximadamente 58 minutos no tempo total de sono por noite em comparação ao placebo (p < 0,029) e sete episódios de despertar a menos por noite (p < 0,013) com DHA3.

Em análise post hoc (realizada após a conclusão do estudo, em um subgrupo não definido como desfecho principal), de 188 crianças classificadas como apresentando problemas de sono na avaliação inicial, foram observadas diferenças favoráveis nos escores de parassonias (p < 0,039) e de perturbação total do sono (p < 0,049). Contudo, esses achados devem ser considerados geradores de hipótese. A subamostra foi pequena, e o estudo não foi dimensionado primariamente para avaliar o sono. Os resultados sugerem uma possível associação observada em análise exploratória, que necessita de confirmação em estudos especificamente desenhados para avaliação do sono3.

Uma revisão sistemática e meta-análise de 20 estudos, sendo 12 ensaios clínicos randomizados ou controlados e oito estudos longitudinais, encontrou possíveis benefícios da exposição a ômega-3 na organização do sono neonatal e na redução de distúrbios do sono em crianças com problemas em nível clínico. Não houve efeito significativo sobre duração total, latência ou eficiência do sono em crianças saudáveis, nem sobre os principais desfechos em adultos. Como a revisão incluiu o próprio DOLAB Study, ela sintetiza o conjunto disponível, mas não constitui uma confirmação independente de seus resultados, seus achados observacionais também não demonstram causalidade2.

Barion et al. (2024)4 avaliaram, em uma coorte conduzida no Brasil, a associação entre a suplementação oral de DHA e a qualidade do sono de 59 lactentes nascidos muito prematuros ou extremamente prematuros, com idade entre 12 e 24 meses. A qualidade do sono foi avaliada pelo Brief Infant Sleep Questionnaire (BISQ). Embora algumas medianas de duração do sono tenham sido numericamente maiores em estratos do grupo suplementado, as diferenças não foram estatisticamente significativas. As análises de regressão também não demonstraram associação significativa entre o uso de DHA e a qualidade do sono, mesmo após ajuste para o status ponderal ao nascimento. Os autores concluíram que, nessa população, a qualidade do sono não esteve associada à suplementação de DHA e ressaltaram a necessidade de estudos adicionais4.  

Em síntese, as evidências disponíveis ainda não permitem estabelecer que a suplementação de DHA melhore o sono infantil. Embora tenham sido observados sinais favoráveis em análises exploratórias e em subgrupos específicos, os resultados não foram consistentes nas amostras completas, nem confirmados de forma independente em diferentes populações pediátricas. Portanto, são necessários estudos clínicos especificamente delineados e dimensionados para avaliar os efeitos do DHA sobre desfechos objetivos e clinicamente relevantes do sono infantil2-4.

Referências

  1. Kim HY, Huang BX, Spector AA. Molecular and signaling mechanisms for docosahexaenoic acid-derived neurodevelopment and neuroprotection. Int J Mol Sci. 2022;23(9):4635.
  2. Dai Y, Liu J. Omega-3 long-chain polyunsaturated fatty acid and sleep: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials and longitudinal studies. Nutr Rev. 2021;79(8):847-868.
  3. Montgomery P, Burton JR, Sewell RP, Spreckelsen TF, Richardson AJ. Fatty acids and sleep in UK children: subjective and pilot objective sleep results from the DOLAB study: a randomized controlled trial. J Sleep Res. 2014;23(4):364-388.
  4. Barion GR, Marghetti PG, Cagliari PZ, Mastroeni MF. Docosahexaenoic acid and sleep quality in very and extreme preterm infants. Int J Environ Res Public Health. 2024;21:1362.
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