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Deficiência de ferro: manejo clínico e evidências para a reposição oral

A deficiência de ferro é uma das alterações nutricionais mais frequentes e clinicamente relevantes, com impacto que ultrapassa a queda da hemoglobina e envolve fadiga, desempenho funcional, desenvolvimento infantil, saúde materna e qualidade de vida. Sua ocorrência é particularmente importante em grupos com maior vulnerabilidade ou demanda fisiológica, incluindo crianças, mulheres em idade reprodutiva, gestantes, idosos e pacientes com doenças crônicas ou inflamatórias. Na prática clínica, esse cenário exige uma abordagem sistemática. É necessário reconhecer populações de risco, confirmar a deficiência por parâmetros hematológicos e de estoque e investigar suas causas, incluindo perdas sanguíneas, maior demanda fisiológica, ingestão insuficiente e redução da absorção intestinal. A partir dessa avaliação, torna-se possível planejar uma estratégia de reposição eficaz, tolerável e adequada à rotina do paciente1,2.

O ferro é essencial para a eritropoiese, pois participa da síntese de hemoglobina e de múltiplos processos celulares dependentes de ferro. A deficiência de ferro pode resultar de ingestão insuficiente, redução da absorção intestinal, perdas sanguíneas ou aumento da demanda fisiológica, como na gestação e em fases de crescimento. Quando não corrigida, compromete a síntese de hemoglobina e pode evoluir para anemia ferropriva. Assim, a anemia ferropriva deve ser interpretada como manifestação de um desequilíbrio clínico que precisa ser identificado, corrigido e acompanhado, e não apenas como um valor laboratorial isolado1,2.

Evidências para a suplementação oral

A reposição oral permanece como estratégia central no manejo da deficiência de ferro em pacientes clinicamente estáveis e com absorção intestinal preservada. A escolha da formulação e do regime deve considerar tolerabilidade, adesão, gravidade da deficiência e contexto clínico, reforçando a importância da individualização do tratamento2.

Em crianças e adolescentes, uma meta-análise de 129 ensaios randomizados, publicada no BMJ Global Health3, incluiu 34.564 participantes e demonstrou que a suplementação oral de ferro reduz anemia, deficiência de ferro e anemia ferropriva. Os regimes de administração frequentes e intermitentes tiveram benefícios semelhantes para alguns desfechos, embora aumentos de ferritina e, após ajuste para anemia basal, de hemoglobina tenham sido maiores com suplementação mais frequente. Esses achados reforçam que o ferro oral tem efeito clínico consistente, de magnitude global moderada, mas que sua efetividade prática depende de dose, duração, perfil do paciente e continuidade do uso3.

Em gestantes, a suplementação oral diária de ferro também é respaldada por evidências robustas. A revisão sistemática Cochrane conduzida por Finkelstein JL et al., (2024)4 incluindo 57 ensaios clínicos e 48.971 participantes, avaliou suplementação oral diária durante a gravidez. A revisão evidenciou redução de anemia e deficiência de ferro ao final da gestação, embora a certeza da evidência tenha variado entre desfechos maternos e neonatais. Esses resultados são particularmente relevantes diante do aumento da demanda fisiológica por ferro durante a gestação. Ainda assim, sua interpretação deve ser limitada à população avaliada: a revisão apoia a efetividade da suplementação oral diária em gestantes, mas não demonstra superioridade universal de uma formulação específica nem justifica extrapolação automática para todos os perfis atendidos na atenção primária4.

Adesão, tolerabilidade e efetividade prática

A adesão é um componente decisivo da efetividade da reposição oral de ferro, já que a continuidade do tratamento pode ser limitada por eventos gastrointestinais. Em ensaio clínico randomizado com mulheres com deficiência de ferro, a suplementação em dias alternados apresentou ferritina final semelhante ao regime diário, mas menor frequência de sintomas gastrointestinais nos dias de administração. Esses achados sugerem que a escolha do esquema posológico deve considerar a tolerabilidade, já que regimes mais bem tolerados podem favorecer a adesão e, consequentemente, a efetividade da reposição oral de ferro5.

Os resultados desse ensaio são consistentes com evidências sintetizadas em uma revisão sistemática com meta-análise que demonstrou que regimes diários e em dias alternados de ferro oral apresentam eficácia comparável no tratamento da anemia ferropriva, sem diferenças significativas nos principais parâmetros hematológicos. Embora a certeza da evidência tenha sido classificada como muito baixa, os autores reforçam que a escolha do esquema deve ser individualizada, considerando tolerabilidade, contexto clínico e potencial impacto na adesão6.

Conclusão

Dessa forma, a escolha do tratamento não deve se basear exclusivamente na capacidade de elevar os níveis de hemoglobina, mas também em fatores que influenciam sua efetividade na prática clínica, como tolerabilidade, adesão, características do paciente e contexto terapêutico. A individualização da estratégia de reposição permanece como um dos principais determinantes para o sucesso do tratamento da deficiência de ferro.

Referências

  1. Pasricha SR, Tye-Din J, Muckenthaler MU, Swinkels DW. Iron deficiency. Lancet. 2021 Jan 16;397(10270):233-248
  2. Iolascon A, Andolfo I, Russo R, Sanchez M, Busti F, Swinkels D, Aguilar Martinez P, Bou-Fakhredin R, Muckenthaler MU, Unal S, Porto G, Ganz T, Kattamis A, De Franceschi L, Cappellini MD, Munro MG, Taher A; from EHA‐SWG Red Cell and Iron. Recommendations for diagnosis, treatment, and prevention of iron deficiency and iron deficiency anemia. Hemasphere. 2024 Jul 15;8(7):e108.
  3. Andersen CT, Marsden DM, Duggan CP, Liu E, Mozaffarian D, Fawzi WW. Oral iron supplementation and anaemia in children according to schedule, duration, dose and cosupplementation: a systematic review and meta-analysis of 129 randomised trials. BMJ Glob Health. 2023 Feb;8(2):e010745.
  4. Finkelstein JL, Cuthbert A, Weeks J, Venkatramanan S, Larvie DY, De-Regil LM, Garcia-Casal MN. Daily oral iron supplementation during pregnancy. Cochrane Database Syst Rev. 2024 Aug 15;8(8):CD004736.
  5. von Siebenthal HK, Gessler S, Vallelian F, Steinwendner J, Kuenzi UM, Moretti D, Zimmermann MB, Stoffel NU. Alternate day versus consecutive day oral iron supplementation in iron-depleted women: a randomized double-blind placebo-controlled study. EClinicalMedicine. 2023 Nov 3;65:102286.

Dhanvijay AD, Patidar V, Singh J, Kumar S, Mudgal SK, Varikasuvu SR, Kumar R. Efficacy of daily versus alternate day oral iron supplementation for management of anaemia among general population: a systematic review and meta-analysis. BMC Pharmacol Toxicol. 2025 Aug 

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