A obesidade pode modificar a farmacocinética dos contraceptivos hormonais, levantando questionamentos sobre seu impacto na eficácia. Evidências indicam que mulheres com obesidade apresentam menor exposição ao etinilestradiol e menor concentração máxima. Entretanto, não foram observadas alterações relevantes nas concentrações mínimas ao longo do ciclo nem aumento significativo da atividade folicular, sugerindo que essas modificações farmacocinéticas não se traduzem, de forma consistente, em perda da supressão ovariana. Em ensaio clínico randomizado, estratégias como uso contínuo ou aumento de dose em contraceptivos orais combinados em mulheres obesas reduziram a ocorrência de estrutura folicular ativa de 45% para 9%, sugerindo que a fase livre de hormônio pode representar um período de maior vulnerabilidade1,2.
Em relação à eficácia clínica, a revisão sistemática publicada na Cochrane conduzida por Lopez LM, et al. (2016)3, avaliou 17 estudos com mais de 63 mil mulheres com sobrepeso (IMC ≥25) ou obesidade (IMC ≥30), com o objetivo de investigar se o peso corporal ou o IMC influenciavam a eficácia contraceptiva. Foram analisados contraceptivos hormonais como pílulas combinadas, implantes, injetáveis, DIU hormonal, adesivo transdérmico e anel vaginal. De modo geral, os estudos não demonstraram um aumento consistente do risco de gravidez nessa população, embora houvesse heterogeneidade relevante entre formulações e métodos específicos3.
Esses achados são consistentes com os dados de um estudo de fase 3, que indicou ausência de diferença clinicamente significativa na eficácia de um contraceptivo combinado de ultrabaixa dose (noretindrona 1 mg + etinilestradiol 10 mcg) entre diferentes categorias de IMC, com índices de falha semelhantes entre os grupos (<25, 25–30 e >30 kg/m²)4. Em conjunto, essas evidências sugerem que o impacto da obesidade sobre métodos hormonais de uso regular é limitado e inconsistente entre formulações.
Diretrizes da OMS enfatizam que a obesidade (IMC ≥30 kg/m²) não constitui contraindicação para a maioria dos métodos contraceptivos, destacando a importância de reduzir barreiras desnecessárias ao acesso e promover aconselhamento centrado na paciente5,6. Da mesma forma, o U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024 classifica a maioria dos métodos hormonais em 1 ou 2 para mulheres com obesidade, indicando ausência de restrição ou predominância dos benefícios sobre os riscos. A principal ressalva permanece a avaliação individual do risco tromboembólico para métodos contendo estrogênio7. Essas recomendações reforçam que o IMC isoladamente não deve limitar o acesso à contracepção, mas sim orientar uma escolha mais informada e segura.
No contexto da contracepção de emergência, a evidência sugere uma redução da eficácia do levonorgestrel em mulheres com obesidade, com impacto menos pronunciado para o ulipristal. De acordo com os achados, a diretriz da Faculty of Sexual & Reproductive Healthcare (FSRH)9 recomenda o DIU de cobre como o método mais eficaz de contracepção de emergência, com eficácia não afetada pelo peso corporal ou IMC, além de destacar possível redução da eficácia dos contraceptivos orais de emergência, especialmente do levonorgestrel. O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG)10 também recomenda o acetato de ulipristal quando disponível, por apresentar maior eficácia que o levonorgestrel, inclusive em mulheres com sobrepeso ou obesidade, embora a eficácia possa ser reduzida em IMC muito elevado.8-10.
Considerando o conjunto das evidências, os estudos demonstram que a obesidade modifica parâmetros farmacocinéticos, mas não compromete de forma consistente a eficácia dos métodos hormonais de uso regular, mantendo eficácia clínica globalmente adequada. Por outro lado, a contracepção de emergência representa um cenário de maior sensibilidade ao IMC, especialmente para levonorgestrel, exigindo escolha mais criteriosa do método. A incorporação de diretrizes permite alinhar a evidência à prática clínica, reforçando uma abordagem centrada na paciente, baseada em risco individual e sustentada por evidência robusta.
Referências
- Westhoff CL, Torgal AH, Mayeda ER, Pike MC, Stanczyk FZ. Pharmacokinetics of a combined oral contraceptive in obese and normal-weight women. Contraception. 2010 Jun;81(6):474-80.
- Edelman AB, Cherala G, Munar MY, McInnis M, Stanczyk FZ, Jensen JT. Correcting oral contraceptive pharmacokinetic alterations due to obesity: a randomized controlled trial. Contraception. 2014 Nov;90(5):550-6.
- Lopez LM, Bernholc A, Chen M, Grey TW, Otterness C, Westhoff C, Edelman A, Helmerhorst FM. Hormonal contraceptives for contraception in overweight or obese women. Cochrane Database Syst Rev. 2016 Aug 18;2016(8):CD008452.
- Nakajima ST, Pappadakis J, Archer DF. Body mass index does not affect the efficacy or bleeding profile during use of an ultra-low-dose combined oral contraceptive. Contraception. 2016 Jan;93(1):52-7.
- World Health Organization. Medical eligibility criteria for contraceptive use, sixth edition. Geneva: World Health Organization; 2025. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.
- World Health Organization. Selected practice recommendations for contraceptive use. 4th ed. Geneva: World Health Organization; 2025.
- Nguyen AT, Curtis KM, Tepper NK, et al. U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recomm Rep 2024;73(No. RR-4):1–126.
- Glasier A, Cameron ST, Blithe D, Scherrer B, Mathe H, Levy D, Gainer E, Ulmann A. Can we identify women at risk of pregnancy despite using emergency contraception? Data from randomized trials of ulipristal acetate and levonorgestrel. Contraception. 2011 Oct;84(4):363-7.
- Faculty of Sexual & Reproductive Healthcare. FSRH guideline: overweight, obesity and contraception. BMJ Sex Reprod Health. 2019;45(Suppl 2).
- American College of Obstetricians and Gynecologists. Access to emergency contraception. Committee Opinion No. 707. Obstet Gynecol. 2017;130:e48-52.