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Adolescência e aumento da prevalência de constipação intestinal

Durante a adolescência, o funcionamento intestinal pode apresentar variações relevantes decorrentes da interação entre adaptações fisiológicas, fatores ambientais e mudanças comportamentais características dessa etapa do desenvolvimento.

Revisões descrevem que, nesse período, o eixo cérebro-intestino permanece sensível a estímulos centrais e periféricos, ao mesmo tempo em que hábitos alimentares irregulares, baixa ingestão de líquidos e sedentarismo, frequentemente observados nessa faixa etária, podem influenciar a consistência das fezes e o funcionamento intestinal.

Esse conjunto de fatores pode favorecer evacuações menos frequentes ou de maior esforço, sem que isso represente necessariamente uma condição orgânica¹.

Do ponto de vista fisiopatológico, a literatura descreve que, além das condições mencionadas, experiências desconfortáveis e dolorosas podem levar à retenção voluntária recorrente, fenômeno particularmente relevante em crianças mais velhas e adolescentes¹.

A retenção fecal repetida favorece a distensão retal progressiva, o aumento da complacência do reto e a diminuição da sensibilidade à presença de fezes, perpetuando um ciclo que pode agravar a constipação.

Adicionalmente, o sedentarismo pode contribuir para esse cenário ao reduzir estímulos mecânicos e neuro-hormonais relacionados à motilidade intestinal.

Esses mecanismos são considerados funcionalmente reversíveis e fundamentam o racional fisiológico adotado nos critérios de Roma IV².

À luz dessa fisiopatologia, os ensaios clínicos randomizados que investigam intervenções farmacológicas concentram-se em estratégias capazes de modificar o ambiente intraluminal e minimizar as consequências funcionais do quadro.

O macrogol, também denominado polietilenoglicol (PEG), é um polímero osmoticamente ativo, quimicamente inerte e não fermentável, cuja principal ação consiste em aumentar o conteúdo hídrico das fezes por retenção de água no lúmen intestinal, sem absorção sistêmica significativa.

Esse mecanismo atua diretamente sobre um dos principais determinantes funcionais da constipação na adolescência, favorecendo fezes mais macias e evacuação menos dolorosa, condição essencial para interromper o ciclo de retenção descrito²˒³.

A evidência clínica mais robusta que fundamenta o uso do macrogol em crianças e adolescentes provém de revisões sistemáticas e meta-análises de ensaios clínicos randomizados.

O estudo conduzido por de Geus et al., publicado no The Lancet Child & Adolescent Health, incluiu 59 ensaios clínicos randomizados, totalizando 7.045 participantes de 0 a 18 anos, com quadros funcionais definidos por critérios padronizados e representação consistente da faixa etária².

Na comparação com placebo, o macrogol demonstrou maior probabilidade de sucesso terapêutico, sobretudo em desfechos relacionados ao aumento da frequência evacuatória e à melhora do conforto evacuatório, com risco relativo de 1,74 (IC95% 1,25–2,41; p < 0,05), demonstrando um efeito consistente e clinicamente relevante².

Esses resultados são coerentes com estudos de seguimento prolongado que incluíram adolescentes.

Um ensaio clínico duplo-cego publicado no Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition comparou diferentes formulações de polietilenoglicol em crianças e adolescentes até 16 anos, demonstrando redução significativa e sustentada do escore global de sintomas funcionais relacionados ao padrão evacuatório ao longo de 52 semanas.

Foi observada redução média de -3,74 (IC95%: −5,08 a −2,40) em um dos braços de tratamento, mantendo perfil de segurança favorável durante todo o acompanhamento³.

No contexto do manejo desse quadro na adolescência, práticas relacionadas ao estilo de vida exercem papel complementar ao atuarem sobre determinantes fisiológicos do trânsito intestinal.

Revisões descrevem que a ingestão alimentar irregular, o baixo consumo de líquidos e o sedentarismo podem contribuir para fezes mais ressecadas e menor estímulo mecânico ao peristaltismo colônico, influenciando o padrão evacuatório¹.

A prática regular de exercícios físicos associa-se a maior estímulo da motilidade intestinal por mecanismos mecânicos e neuro-hormonais, enquanto hábitos alimentares estruturados e adequada ingestão hídrica modulam o volume e a consistência fecal, favorecendo a melhora do funcionamento intestinal.

Embora esses fatores não possam ser interpretados como intervenções terapêuticas isoladas, a literatura os reconhece como componentes relevantes de um manejo integrado, especialmente por criarem um ambiente fisiológico favorável à resposta às estratégias osmóticas, como o macrogol¹.

Sendo assim, alterações do padrão evacuatório durante a puberdade e adolescência devem ser compreendidas como quadros funcionais que podem ocorrer em função da interação entre fatores fisiológicos, comportamentais e ambientais, incluindo dieta, ingestão hídrica e nível de atividade física.

Ensaios clínicos bem conduzidos indicam que o macrogol atua de maneira alinhada à fisiopatologia predominante, com efeito moderado e consistente¹⁻³.


REFERÊNCIAS

  1. Rajindrajith S, Devanarayana NM. Constipation in children: novel insight into epidemiology, pathophysiology and management. J Neurogastroenterol Motil. 2011;17(1):35-47.
  2. de Geus A, Gordon M, Sinopoulou V, et al. Efficacy and safety of pharmacological therapies for functional constipation in children: a systematic review and meta-analysis. Lancet Child Adolesc Health. 2025;9(12):848-856.
  3. Bekkali NLH, Hoekman DR, Liem O, et al. Polyethylene glycol 3350 with electrolytes versus polyethylene glycol 4000 for constipation: a randomized controlled trial. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2018;66(1):10-15.
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