Introdução
Os sintomas geniturinários, incluindo secura vaginal, dispareunia e prurido, são queixas comuns que afetam significativamente a qualidade de vida de mulheres, especialmente em contextos como o pós-parto e, mais frequentemente, após a menopausa devido ao estado de hipoestrogenismo1.Uma revisão sistemática recente evidenciou o impacto significativo da deficiência hormonal induzida pela lactação sobre a saúde geniturinária no pós-parto, demonstrando que a maioria das mulheres apresenta atrofia e secura vaginal, com uma proporção substancial também experimentando disfunção sexual2. Os achados corroboram que o estado de hipoestrogenismo fisiológico característico da amamentação compromete a integridade do epitélio vaginal, resultando em sintomas que afetam negativamente a qualidade de vida e a função sexual no período puerperal2. No cenário do puerpério, alterações hormonais fisiológicas, a amamentação e possíveis traumas durante o parto por via vaginal podem exacerbar ainda mais esses sintomas. O manejo seguro e eficaz dessas condições é um desafio clínico, particularmente quando terapias hormonais são contraindicadas ou não desejadas. Neste contexto, hidratantes intravaginais não hormonais, como aqueles à base de ácido poliacrílico3, emergem como opções terapêuticas promissoras.
Mecanismo de Ação e Fundamentação
O ácido poliacrílico é um polímero hidrofílico de alto peso molecular que atua como agente mucoadesivo e hidratante4. Quando aplicado na mucosa vaginal, o gel de ácido poliacrílico adere ao epitélio, promovendo a retenção de água, restaurando a lubrificação e o pH fisiológico, e formando uma barreira protetora que reduz o atrito e a irritação local5. A tabela 1 resume as propriedades do ácido poliacrílico. Diferentemente das terapias hormonais, o ácido poliacrílico age de forma mecânica e física, sem influenciar os níveis séricos de estradiol ou outros hormônios, o que o torna particularmente atrativo para populações onde o estrogênio é contraindicado, como pacientes com neoplasias hormônio-sensíveis.
Tabela 1. Propriedades do Ácido Poliacrílico e Relevância Clínica em Ginecologia
Evidências Clínicas
A eficácia do ácido poliacrílico no tratamento de sintomas geniturinários foi avaliada em estudos randomizados. O ensaio clínico conduzido por Juliato et al.3 investigou especificamente o uso de hidratante vaginal à base de ácido poliacrílico em mulheres com câncer de mama em uso de tamoxifeno, um cenário que mimetiza, em termos de hipoestrogenismo, condições como o puerpério. O estudo demonstrou que o uso do gel de ácido poliacrílico a cada três dias, por 30 dias, resultou em melhora significativa nos escores de secura vaginal, dor e prurido quando comparado ao uso de lubrificante vaginal. Além disso, o estudo relatou uma melhora significativa no escore total do Índice de Função Sexual Feminina (FSFI), indicando um impacto positivo não apenas nos sintomas físicos, mas também na função sexual e na qualidade de vida das pacientes3,5,6.
Uma revisão sistemática recente, que atualizou a evidência sobre o manejo de sintomas geniturinários em pacientes com câncer de mama, corroborou esses achados. Fallah et al.6 identificaram o ácido poliacrílico como uma das intervenções não hormonais com evidência de benefício, destacando sua capacidade de melhorar os sintomas vaginais e a função sexual, com um perfil de segurança favorável, uma vez que não altera os níveis hormonais sistêmicos.
Aplicabilidade no Puerpério
A transposição dessas evidências para a população puérpera é plausível e potencialmente aplicável. Durante o pós-parto, muitas mulheres experimentam secura vaginal e desconforto na relação sexual, seja por causa da amamentação (que induz um estado hipoestrogênico transitório), seja por alterações anatômicas e teciduais decorrentes do parto7. A segurança do ácido poliacrílico, por ser um produto não hormonal e de ação tópica, é um ponto crítico a seu favor, especialmente para mulheres que estão amamentando e desejam evitar qualquer interferência medicamentosa sistêmica3.
Considerações Finais
As evidências atuais, embora derivadas majoritariamente de estudos na pós-menopausa ou insuficiência ovariana prematura e sobreviventes de câncer de mama, sugerem que os hidratantes intravaginais à base de ácido poliacrílico são uma opção eficaz e segura para o alívio de sintomas geniturinários, como secura, dor e dispareunia. Sua capacidade de melhorar a função sexual e a qualidade de vida, aliada à ausência de efeitos hormonais sistêmicos, justifica sua inclusão no manejo de pacientes no puerpério. No entanto, ensaios clínicos específicos nessa população são necessários para consolidar tais recomendações e otimizar os protocolos de uso.
Referências
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2 - Perelmuter S, Stokes C, Chapalamadugu M, Drian A, Zusman GL, Berdugo J, Davide M, Andy C, Grant R, Drew T, Burns R, Meurer J, Shah A, Contractor S, Messafi A, Thompson A, Krapf J, Rubin R. Postpartum and Lactation-Related Genitourinary Symptoms: A Systematic Review. Obstet Gynecol. 2025;146(1):59-72. doi:10.1097/AOG.0000000000005940
3 - Juliato PT, Rodrigues AT, Stahlschmidt R, Juliato CR, Mazzola PG. Can polyacrylic acid treat sexual dysfunction in women with breast cancer receiving tamoxifen? Climacteric. 2017;20(1):62-66. doi:10.1080/13697137.2016.1258396
4 - Netsomboon K, Bernkop-Schnürch A. Mucoadhesive vs. mucopenetrating particulate drug delivery. Eur J Pharm Biopharm. 2016 Jan;98:76-89. doi: 10.1016/j.ejpb.2015.11.003. Epub 2015 Nov 17. PMID: 26598207.
5 - Fernandes T, Costa-Paiva LH, Pedro AO, Baccaro LF, Pinto-Neto AM. Efficacy of vaginally applied estrogen, testosterone, or polyacrylic acid on vaginal atrophy: a randomized controlled trial. Menopause. 2016 Jul;23(7):792-8. doi: 10.1097/GME.0000000000000613. PMID: 27116462.
6 - Fallah P, Wolfe D, Hutton B, Clemons M, Shorr R, Vandermeer L, Rushton M. Management of genitourinary symptoms in patients with breast cancer: an updated systematic review of available evidence from randomized trials. Support Care Cancer. 2023;31(2):131. doi:10.1007/s00520-023-07583-z
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