A transição puberal feminina, marcada pela primeira menarca, representa um ponto de reorganização biológica em que o rápido crescimento, a expansão da massa magra e o início das perdas menstruais convergem para elevar de forma substancial a demanda fisiológica por ferro.
A literatura descreve que, nesse período, a síntese de hemoglobina e a expansão do volume sanguíneo ocorrem simultaneamente ao estabelecimento de perdas cíclicas de ferro, criando um balanço negativo particularmente relevante em adolescentes com ingestão dietética reduzida. Esse cenário fundamenta biologicamente a vulnerabilidade dessa população¹˒².
Em adolescentes, a Organização Mundial da Saúde estabelece a deficiência de ferro como ferritina sérica abaixo de 15 μg/L e anemia ferropriva como concentrações de hemoglobina inferiores a 12 g/dL³˒⁴.
Um ensaio clínico randomizado, publicado no American Journal of Clinical Nutrition, acompanhou 354 adolescentes na pré-menarca durante um período de quatro anos. Nesse estudo, foi realizado monitoramento periódico dos níveis de ferro, permitindo observar de forma controlada a interação entre crescimento, menarca e estoques de ferro⁵.
Os resultados demonstraram que o aumento da massa magra foi um preditor de redução da ferritina sérica (p < 0,0001), e que a transição para a fase menstrual foi associada a um declínio adicional dos estoques de ferro, especialmente em meninas com baixa ingestão dietética⁵.
Todavia, em adolescentes, a deficiência de ferro não tratada pode representar fator de risco para anemia ferropriva e diversos outros desfechos, incluindo fadiga, redução da capacidade física, comprometimento da função imunológica e prejuízo do desempenho cognitivo. Esses achados reforçam a necessidade de atenção especial a essa população²˒⁶.
Quando se avalia a intervenção direta com ferro em adolescentes e mulheres após a menarca, a principal evidência científica deriva de revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados.
O estudo publicado pela colaboração Cochrane, conduzido por Fernández-Gaxiola e De-Regil, incluiu 25 ensaios clínicos randomizados, totalizando 10.996 participantes⁷.
Os desfechos primários incluíram prevalência de anemia, concentrações de hemoglobina e ferritina sérica.
Em comparação com placebo, a suplementação intermitente de ferro reduziu a prevalência de anemia e aumentou os níveis de hemoglobina e ferritina. A diferença média de hemoglobina foi de magnitude pequena a moderada, porém consistente entre os estudos⁷.
Ainda assim, o conjunto das evidências sugere que estratégias de suplementação de ferro em populações pós-menarca podem atenuar o impacto negativo das perdas menstruais sobre os estoques de ferro, desde que contextualizadas aos padrões dietéticos e às características individuais⁷.
Em síntese, evidências científicas indicam que a menarca representa um período de risco aumentado para depleção de ferro, que a não correção da deficiência pode acarretar consequências hematológicas e funcionais clinicamente relevantes, e que intervenções envolvendo suplementação de ferro, especialmente após o estabelecimento do ciclo menstrual, exercem efeitos consistentes na melhora de marcadores hematológicos.
Essa compreensão, ancorada em metodologia rigorosa e interpretação cautelosa dos dados, subsidia abordagens educacionais e institucionais responsáveis, orientadas à prevenção da deficiência de ferro em adolescentes¹⁻⁷.
REFERÊNCIAS
- World Health Organization. Guideline: Daily iron supplementation in adult women and adolescent girls. Geneva: World Health Organization; 2016.
- Beard JL. Iron biology in immune function, muscle metabolism and neuronal functioning. J Nutr. 2001;131(2 Suppl 2):568S-580S.
- World Health Organization. Guideline on haemoglobin cutoffs to define anaemia in individuals and populations. Geneva: World Health Organization; 2024.
- World Health Organization. WHO guideline on use of ferritin concentrations to assess iron status in individuals and populations. Geneva: World Health Organization; 2020.
- Ilich Ernst JZ, McKenna AA, Badenhop NE, et al. Iron status, menarche, and calcium supplementation in adolescent girls. Am J Clin Nutr. 1998;68(4):880-887.
- Bruner AB, Joffe A, Duggan AK, Casella JF, Brandt J. Randomised study of cognitive effects of iron supplementation in non-anaemic iron-deficient adolescent girls. Am J Clin Nutr. 1996;63(6):922-929.
- Fernández-Gaxiola AC, De-Regil LM. Intermittent iron supplementation for reducing anaemia and its associated impairments in adolescent and adult menstruating women. Cochrane Database Syst Rev. 2019;(1).