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Perfil nutricional de crianças diagnosticadas com Síndrome de Down

A síndrome de Down representa uma condição genética complexa na qual alterações sistêmicas podem interferir na regulação metabólica e no aproveitamento de nutrientes, resultando em um perfil bioquímico diferenciado desde a infância.

A literatura indica que crianças e adolescentes com síndrome de Down apresentam diferenças consistentes nas concentrações de micronutrientes essenciais quando comparados a crianças sem a condição, sugerindo um padrão de vulnerabilidade nutricional que ultrapassa fatores dietéticos isolados e reflete, ao menos em parte, particularidades metabólicas inerentes à trissomia do cromossomo 21¹.

Evidências clínicas demonstram essas alterações por meio da revisão sistemática com meta-análise conduzida por Barišić et al., publicada no Journal of Intellectual Disability Research, que avaliou 40 estudos, sendo 31 incluídos na síntese quantitativa¹.

Os principais desfechos analisados foram níveis séricos, plasmáticos e sanguíneos de micronutrientes. Os resultados mostraram reduções significativas de zinco (SMD −2,32; IC95% −3,22 a −1,41; p < 0,00001), selênio (SMD −1,39; IC95% −2,26 a −0,51; p = 0,002) e cálcio (SMD −0,77; IC95% −1,34 a −0,21; p = 0,007)¹.

A magnitude desses efeitos pode ser considerada moderada a grande, com elevada consistência entre os estudos, indicando que essas alterações constituem um padrão recorrente nessa população.

Além dos ensaios clínicos e revisões sistemáticas, estudos observacionais reforçam a consistência desse perfil ao demonstrar, de forma quantitativa, a frequência de deficiências específicas em crianças com síndrome de Down.

Em um estudo transversal conduzido em população pediátrica brasileira, a deficiência de zinco sérico foi identificada em 94,3% da população estudada².

Em relação à vitamina D, um estudo prospectivo descritivo identificou prevalência de deficiência de 25(OH) vitamina D em 26,8% das crianças com síndrome de Down avaliadas³.

No metabolismo do ferro, um estudo clínico publicado no Journal of Pediatrics demonstrou prevalência de deficiência de ferro em 10% das crianças com síndrome de Down e anemia ferropriva em 3%⁴.

Dados adicionais de um estudo transversal apontaram casos de anemia em 24,3%, deficiência de ferro em 21,6% e ferritina reduzida em 35,1% da população estudada⁵.

Esses achados, derivados de contextos clínicos distintos, indicam que a deficiência de micronutrientes nessa população é frequentemente observada na prática clínica, ainda que com variação nas estimativas conforme o método e a população estudada.

No entanto, quando se avalia a intervenção sobre essas alterações, ensaios clínicos indicam que a suplementação indiscriminada de micronutrientes não se traduz necessariamente em benefício clínico mensurável.

Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, conduzido por Ellis et al. e publicado no BMJ, incluiu 156 lactentes com síndrome de Down e avaliou o impacto da suplementação com antioxidantes (incluindo zinco, selênio e vitaminas A, C e E) e ácido folínico⁶.

Os desfechos primários incluíram o quociente de desenvolvimento e medidas de linguagem após 18 meses de suplementação⁶.

Os resultados demonstraram ausência de benefício significativo no desenvolvimento psicomotor (IC95% −2,2 a 4,6), sem significância estatística⁶.

De forma consistente, não foram observadas diferenças nos desfechos de linguagem ou nos marcadores bioquímicos⁶. O efeito observado foi pequeno, apesar da plausibilidade biológica previamente estabelecida.

A integração dessas evidências indica que, embora exista um padrão consistente de alteração no estado nutricional, evidenciado tanto por meta-análises quanto por estudos transversais, a suplementação universal não demonstrou benefício clínico em ensaios randomizados de alta qualidade.

Dessa forma, a prática baseada em evidências sustenta que a abordagem nutricional em crianças com síndrome de Down deve ser individualizada, orientada por avaliação clínica e laboratorial objetiva, evitando extrapolações¹⁻⁶.

REFERÊNCIAS

  1. Barišić A, Ravančić ME, Majstorivić D, Vraneković J. Micronutrient status in children and adolescents with Down syndrome: systematic review and meta-analysis. J Intellect Disabil Res. 2023;67(8):701-719.
  2. Domingues NT, Lazarin LR, Daniel A, Carvalho LR, Sandrim VC, Fonseca CRB. Deficiency of serum zinc in children with Down syndrome. Int J Sci Res Eng Dev. 2021;4(1).
  3. Kishore VRVK, Hemasundar M. Children with Down syndrome's chromosomal profile, growth, and levels of vitamin D: prospective descriptive study. J Cardiovasc Dis Res. 2023;14(9).
  4. Dixon NE, Crissman BG, Smith PB, Zimmerman SA, Worley G, Kishnani PS. Prevalência de deficiência de ferro em crianças com síndrome de Down. J Pediatr. 2010;157(6):967-71.e1.
  5. Domingues NT, Daniel A, Torres BR, Bizzotto CHLD, Tiba CAH, Carvalho LR, et al. A deficiência de micronutrientes em crianças e adolescentes com síndrome de Down. In: Nascimento RM, editor. A genética e a construção de novos paradigmas nas ciências da vida. Vol. 2. Ponta Grossa (PR): Atena Editora; 2021. p. 14-24.
  6. Ellis JM, Tan HK, Gilbert RE, et al. Supplementation with antioxidants and folinic acid for children with Down's syndrome: randomised controlled trial. BMJ. 2008;336(7644):594-597.
pediatria