A infertilidade é uma doença do sistema reprodutor definida como sendo a incapacidade de um casal em engravidar após um ano ou mais de relações sexuais sem uso de métodos contraceptivos¹. Globalmente, ela afeta cerca de 17,5% da população, ou seja, uma em cada seis pessoas no mundo, sendo proporcional o número de casos de mulheres, homens, ambos (o casal) afetados pela infertilidade e casos em que a causa não pode ser identificada¹. Essa condição está associada a impactos clínicos e psicossociais significativos, incluindo repercussões na saúde mental, além do estigma social frequentemente observado nesse contexto¹. A dificuldade feminina de engravidar aumenta com a idade, sendo rara aos 25 anos, mas muito mais frequente aos 45 anos, refletindo uma prevalência de infertilidade feminina de 55% nesta idade¹. Alguns hábitos de vida, como alimentação inadequada, excesso de peso, estresse, cigarro e bebida alcoólica, podem prejudicar a fertilidade¹.
Dentre as principais causas femininas da infertilidade estão as alterações ovulatórias, responsáveis por cerca de 25% dos diagnósticos, e doenças tubárias, variando entre 11% e 67% dos diagnósticos¹. Das causas anovulatórias, a síndrome dos ovários policísticos (SOP) destaca-se com aproximadamente 80% dos casos, refletindo alterações hormonais, metabólicas e estruturais que comprometem a ovulação, o transporte dos gametas ou a fertilização¹.
A síndrome do ovário policístico (SOP) constitui o distúrbio endócrino de maior prevalência em mulheres em idade reprodutiva, e estando intimamente relacionada a obesidade e à resistência à insulina. Essas disfunções metabólicas exercem papel significativo na fisiopatologia da infertilidade, uma vez que interferem nos mecanismos regulatórios da ovulação e na adequada função ovariana². Nesse contexto, a baixa responsividade ovariana à estimulação por gonadotrofinas configura-se como um importante desafio nos protocolos de reprodução assistida, sendo observada em aproximadamente 9–24% dos ciclos de fertilização in vitro, e que pode comprometer as taxas de sucesso³.
A conduta terapêutica na infertilidade feminina é orientada pela etiologia subjacente, podendo abranger desde manejo expectante até intervenções cirúrgicas e o emprego de técnicas de reprodução assistida (RA)¹. Adicionalmente, abordagens adjuvantes — incluindo terapias complementares e estratégias de suplementação nutricional — têm sido progressivamente integradas ao manejo clínico, tanto em contextos de tentativa de concepção espontânea quanto no âmbito dos protocolos de RA¹.
Nesse contexto, o mio‑inositol (MI) tem sido investigado como adjuvante para otimizar a estimulação ovariana, melhorar desfechos laboratoriais e, possivelmente, reduzir o consumo de gonadotrofinas em ciclos de FIV/ICSI.
O mio-inositol é um isômero biologicamente ativo do inositol integrante do complexo de vitamina B, sintetizado a partir da glicose 1-fosfato em reação dependente de NAD+ (nicotinamida adenina dinucleotídeo)³. Esse composto atua em múltiplos processos celulares, incluindo sinalização intracelular, na síntese de lipídios e manutenção da integridade da membrana celular³. Nos ovários, o mio-inositol participa da regulação de vias de sinalização essenciais para a manutenção e qualidade oocitária³, influenciando a progressão da meiose, a liberação de grânulos corticais e a prevenção da poliespermia³. Além disso, o mio-inositol exerce efeito antioxidante, contribuindo para a proteção das células ovarianas e para um microambiente folicular mais favorável ao desenvolvimento embrionário³. Estudos indicam que a suplementação com mio-inositol em mulheres com síndrome do ovário policístico submetidas a técnicas de reprodução assistida melhora a sensibilidade à insulina, a maturação e a qualidade nuclear dos oócitos e promovendo melhor qualidade de óvulos e embriões, o que pode beneficiar mulheres com SOP submetidas à reprodução assistida². Um estudo de 2002 mostra que altas concentrações de mio-inositol no fluido folicular têm um papel significativo na maturação folicular e marcadores de ovulação de boa qualidade4.
A seguir, serão apresentados alguns estudos sobre o uso do Inositol para a melhorar dos resultados de fertilidade em indivíduos com infertilidade feminina tentando engravidar através de tratamento de Reprodução assistida, porém os dados de suplementação também podem ser extrapolados para as tentantes espontâneas.
Em uma revisão realizada por Pandey et al. (2024) observou-se que suplementos nutricionais são frequentemente utilizados por mulheres com infertilidade (em tentativas de concepção espontânea e em tratamento de RA,embora ainda existam limitações na robustez das evidências para alguns suplementos ).¹ Nesta revisão abrangente, o objetivo foi identificar as melhores e mais recentes evidências disponíveis sobre a eficácia e segurança dos suplementos nutricionais para infertilidade feminina¹. E entre os suplementos avaliados, o mio-inositol mostrou-se eficaz em aumentar as taxas de gravidez clínica em mulheres com síndrome do ovário policístico (SOP) e/ou submetidas a tratamento de RA (RR 1,52)¹.
Sene et al. (2025), em uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados, avaliaram o efeito da suplementação com mio-inositol/D-quiro-inositol nos desfechos de mulheres com síndrome do ovário policístico (SOP) em tratamento de reprodução assistida (RA)². Foram incluídos 17 estudos publicados entre 2000 e 2023². A análise mostrou que a suplementação com mio-inositol/D-quiro-inositol aumentou significativamente a taxa de gravidez clínica (RR 1,64, IC 95% 1,25–2,15 I2 = 13,5%; p = 0,32) e a proporção de embriões de alto grau (RR 1,12, IC 95% 1,02–1,23 I2 = 85,43%; p = 0,0001), evidenciando benefícios claros na fertilidade e na qualidade embrionária². Além disso, alguns efeitos modestos sobre parâmetros de reserva ovariana, como contagem de folículos antrais e níveis de hormônio anti-mülleriano, foram observados².
Nazari L., et al. (2020) observou em seu estudo que mulheres com baixa resposta submetidas à ICSI, a suplementação diária de 4 g de mio‑inositol associada a 400 μg de ácido fólico, iniciada 1 mês antes do ciclo e mantida até o gatilho de ovulação, esteve ligada a melhora estatisticamente significativa da taxa de fertilização (p = 0,001) e do número de embriões Grau A (p<0.001), em comparação ao uso isolado de ácido fólico. Esses achados indicam um impacto direto na qualidade embrionária, sem aumento do número total de oócitos recuperados ou de MII. A combinação de maior fertilização com mais embriões de melhor qualidade pode traduzir‑se em melhor taxa cumulativa de gravidez nas más respondedoras à ICSI, apoiando o uso de mio‑inositol como estratégia adicional no manejo deste perfil de paciente³.
Em um outro estudo de revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados, Puldin, et al. (2018) investigaram os efeitos da suplementação de inositol como agente indutor da ovulação em mulheres com SOP5. A síntese dos 10 ensaios clínicos randomizados incluídos demonstrou o aumento da taxa de ovulação e da frequência de ciclos menstruais em comparação ao placebo. A suplementação com inositol foi associada a um aumento significativo na taxa de ovulação (RR 2,3; IC 95% 1,1–4,7; I² = 75%) e na frequência de ciclos menstruais (RR 6,8; IC 95% 2,8–16,6; I² = 0%), indicando benefício estatisticamente significativo de aspectos fisiológicos que impactam o a saúde do sistema reprodutivo. Apesar de nenhum estudo incluído ter avaliado as taxas de nascidos vivos ou abortos espontâneos5. Os autores concluíram que o inositol demonstrou potencial em restaurar a ovulação e regular os ciclos menstruais em mulheres com SOP, além de induzir melhorias metabólicas5.
Em revisão sistemática e metanálise de ensaios clínicos conduzido por Zheng X, et al., (2017) envolvendo mulheres inférteis submetidas à indução de ovulação para ICSI ou FIV-ET, a suplementação com mio-inositol foi associada a aumento da taxa clínica de gravidez (IC 95% 1,04–1,96; p=0,03) e redução da taxa de aborto (IC 95% 0,08–0,50; p=0,0006). Observou-se ainda maior proporção de embriões de melhor qualidade - Grau 1 (IC 95% 1,10–2,74; p=0,02), redução de oócitos degenerados (IC 95% 0,11–0,86; p=0,02) e menor necessidade total de gonadotrofinas (IC 95% −591,69 a −210,39; p=0,001). Em análise adicional de metanálise de RCTs, o mio-inositol demonstrou efeito poupador de gonadotrofinas (p<0,00001), inclusive em populações com e sem SOP, além de redução da duração da estimulação em pacientes com SOP. Não foram identificadas diferenças relevantes em número total de oócitos, oócitos MII, dias de estimulação (no conjunto principal) ou níveis de estradiol6.
De forma geral, os achados reunidos nesta revisão reforçam o papel promissor do mio-inositol como um adjuvante seguro e eficaz no tratamento da infertilidade feminina, especialmente em mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP) submetidas à reprodução assistida (RA) A suplementação mostrou impacto positivo em diversos desfechos reprodutivos, incluindo melhora da sensibilidade à insulina, da qualidade e maturação oocitária, da taxa de fertilização e da taxa de gravidez clínica, além de contribuir para uma resposta ovariana mais eficiente e uso reduzido de gonadotrofinas.
Embora ainda sejam necessários estudos adicionais com amostras maiores e protocolos padronizados, as evidências atuais indicam que o uso do mio-inositol representa uma estratégia complementar relevante para potencializar os resultados dos tratamentos de RA, promovendo melhor desempenho ovariano e maior chance de sucesso reprodutivo em mulheres com infertilidade, em especial aquelas com SOP.
Referências Bibliograficas:
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- Akbari Sene A, Saeedzarandi M, Yazdizadeh M, Ghaffari SR, Amjadi F, Zandieh Z, Moradi Y. The effect of myo-inositol on assisted reproductive technology outcomes in women with polycystic ovarian syndrome: A systematic review and meta-analysis of randomized clinical trial studies. Int J Reprod Biomed. 2025 Jul 29;23(5):353-376. doi:10.18502/ijrm.v23i5.19260. Epub 2025 May. PMID: 40989082; PMCID: PMC12413536.
- Nazari, L., Salehpour, S., Hosseini, S., Sharkhiz, N., Azizi, E., Hashemi, T., & Ghodssi-Ghassemabadi, R. (2020). Effect of myo-inositol supplementation on ICSI outcomes among poor ovarian responder patients: a randomized controlled trial.. Journal of gynecology obstetrics and human reproduction, 101698.
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