A ocorrência de amigdalites e faringites recorrentes no período pré-escolar representa um desafio clínico frequente, com repercussões relevantes sobre a qualidade de vida da criança, a dinâmica familiar e a utilização de serviços de saúde.
Essas condições são reconhecidas como uma das principais causas de encaminhamento à otorrinolaringologia pediátrica e de discussão sobre intervenções preventivas e cirúrgicas¹. Quando recorrentes, associam-se a absenteísmo escolar, uso irracional de antibióticos e impacto psicossocial, reforçando a necessidade de abordagens preventivas¹.
Do ponto de vista fisiopatológico, a mucosa da orofaringe constitui uma interface entre o sistema imune inato e adaptativo, atuando como linha de frente na exposição contínua a antígenos respiratórios, alimentares e microbiológicos.
Essa defesa local é particularmente ativa e vulnerável nos primeiros anos de vida, período em que a maturação do sistema imune de mucosas ainda está em desenvolvimento, o que contribui para maior suscetibilidade a infecções recorrentes².
A integridade funcional dessa resposta imunológica depende de múltiplos fatores, incluindo a integridade da barreira epitelial, a apresentação antigênica eficiente e o equilíbrio da resposta inflamatória local.
Nesse contexto, o estado nutricional imunológico exerce papel modulador relevante, uma vez que micronutrientes específicos participam diretamente da diferenciação e ativação de células imunes, da produção de citocinas e da manutenção da imunidade de mucosas³.
Evidências demonstram que deficiências nutricionais, mesmo leves, durante períodos críticos do desenvolvimento infantil podem comprometer a resposta imune, aumentando a frequência e a persistência de infecções do trato respiratório superior³.
Entre os micronutrientes com maior respaldo, o zinco destaca-se por sua atuação central na imunidade celular e humoral. Esse oligoelemento é essencial para a diferenciação linfocitária, a função de células natural killer, a sinalização intracelular de citocinas e a manutenção da integridade das mucosas respiratórias e orofaríngeas³.
Evidências provenientes de ensaios randomizados indicam que a suplementação de zinco pode reduzir a incidência de infecções respiratórias altas em crianças pequenas.
Em um estudo triplo-cego e controlado por placebo, Martinez-Estevez e colaboradores acompanharam 355 crianças saudáveis entre 6 e 12 meses de idade por um período de 12 meses, avaliando como desfecho primário a incidência de infecções do trato respiratório superior em crianças que utilizaram zinco ou placebo.
Nesse estudo, a randomização para o grupo placebo esteve associada a maior número de episódios infecciosos, com razão de taxa de incidência de 1,73 (IC95% 1,52–1,97; p < 0,001), demonstrando um efeito preventivo da suplementação diária de zinco⁴.
Paralelamente às abordagens nutricionais e clínicas, medidas não farmacológicas desempenham papel relevante na prevenção de infecções respiratórias altas na infância, incluindo faringites e quadros de amigdalite.
Intervenções baseadas em higiene das mãos em ambientes coletivos infantis, como creches e pré-escolas, foram avaliadas em ensaios clínicos randomizados e sintetizadas em revisões sistemáticas, demonstrando redução consistente de infecções respiratórias e de absenteísmo associado.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no Archives of Disease in Childhood, que incluiu exclusivamente ensaios clínicos randomizados em crianças de 3 a 11 anos, indicou que programas estruturados de higiene das mãos podem reduzir a incidência de infecções do trato respiratório e sintomas associados, sugerindo um efeito clinicamente relevante em populações pediátricas expostas a ambientes coletivos⁵.
Outras intervenções não farmacológicas, como a irrigação nasal com solução salina isotônica — estratégia destinada à remoção mecânica de secreções e patógenos da mucosa nasal —, foram avaliadas em ensaios clínicos randomizados conduzidos em população pediátrica.
Em um estudo multicêntrico randomizado envolvendo 401 crianças, a irrigação nasal foi associada a menor incidência de rinite e infecções respiratórias altas ao longo do seguimento, além de redução de dias de doença, absenteísmo escolar e necessidade de uso de medicamentos, sugerindo um efeito preventivo modesto, porém clinicamente relevante⁶.
De forma complementar, a redução da exposição passiva à fumaça do tabaco permanece recomendada como medida ambiental preventiva, uma vez que revisões demonstram associação entre ambientes livres de fumaça e melhor saúde respiratória infantil, embora o efeito específico sobre amigdalites recorrentes não possa ser isolado de outros desfechos respiratórios⁷.
Diante do exposto, a literatura evidencia que o estado nutricional e imunológico, particularmente no que se refere ao zinco, influencia de maneira consistente, embora moderada, a recorrência de infecções de vias aéreas superiores em crianças pequenas¹⁻⁷.
REFERÊNCIAS
- Goldstein NA, Stewart MG, Witsell DL, Hannley MT, Weaver EM, Yueh B, et al. Quality of life after tonsillectomy in children with recurrent tonsillitis. Otolaryngol Head Neck Surg. 2008;138(1 Suppl).
- Zhou X, Wu Y, Zhu Z, et al. Mucosal immune response in biology, disease prevention and treatment. Signal Transduct Target Ther. 2025;10:7.
- Cunningham-Rundles S, McNeeley DF, Moon A. Mechanisms of nutrient modulation of the immune response. J Allergy Clin Immunol. 2005;115(6):1119-1128.
- Martinez Estevez NS, Alvarez Guevara AN, Rodriguez Martinez CE. Effects of zinc supplementation in the prevention of respiratory tract infections and diarrheal disease in Colombian children: a 12 month randomised controlled trial. Allergol Immunopathol (Madr). 2016;44(4):283-290.
- Willmott M, Nicholson A, Busse H, et al. Effectiveness of hand hygiene interventions in reducing illness absence among children in educational settings: a systematic review and meta-analysis. Arch Dis Child. 2016;101(1):42-50.
- Šlapak I, Skoupá J, Strnad P, Horník P. Efficacy of isotonic nasal wash (seawater) in the treatment and prevention of rhinitis in children. Arch Otolaryngol Head Neck Surg. 2008;134(1):67-74.
- Asfaw SM, Vijayawada SM, Sharifian Y, Choudhry F, Khattar P, Cavalie PC, et al. Protecting young lives: a systematic review of the impact of secondhand smoke exposure and legislative measures on children's health. Cureus. 2024;16(10). doi:10.7759/cureus.72548.