O desenvolvimento visual nos primeiros anos de vida é um processo altamente
sensível. Ao longo dos primeiros anos, período particularmente crítico para a
maturação da acuidade visual, ocorre uma intensa maturação da retina e das vias
visuais centrais, etapa que depende de estímulos visuais e de suporte nutricional
apropriado1. O DHA é o principal ácido graxo dos segmentos externos dos
fotorreceptores da retina humana, podendo representar cerca de metade ou mais
dos ácidos graxos presentes nos fosfolipídios dessas membranas, estruturas
responsáveis pela conversão da luz em sinais neurais. Sua presença adequada está
diretamente relacionada à organização das membranas celulares, à fluidez da
retina e à eficiência da fototransdução, influenciando a transmissão dos sinais
visuais ao córtex cerebral2.
Evidências clínicas robustas demonstram que a oferta adequada de DHA no início
da vida está associada a melhor maturação da acuidade visual. Um dos estudos
mais consistentes nesse campo é o DIAMOND Study (DHA Intake and
Measurement of Neural Development), um ensaio clínico randomizado,
duplo-cego e multicêntrico, conduzido com mais de 300 lactentes alimentados
com fórmulas contendo diferentes concentrações de DHA. Os resultados
mostraram que bebês que receberam fórmulas suplementadas com DHA
apresentaram acuidade visual significativamente superior aos 12 meses de idade
quando comparados ao grupo controle sem DHA (p < 0,001)3.
Importante destacar que o benefício foi observado já a partir de concentrações
consideradas fisiológicas de DHA (0,32% do total de ácidos graxos), sem ganho
adicional com doses mais elevadas, reforçando o conceito de adequação
nutricional e não de superdosagem. O estudo seguiu rigorosamente diretrizes
metodológicas internacionais (CONSORT), apresentou análise estatística
apropriada, discussão de vieses e controle de fatores de confusão, conferindo alto
grau de confiabilidade aos seus achados3.
Resultados semelhantes haviam sido observados previamente em outro ensaio
clínico randomizado clássico conduzido por Birch e colaboradores, no qual
lactentes alimentados com fórmulas suplementadas com DHA, isoladamente ou
em combinação com ácido araquidônico (ARA), apresentaram melhor
desempenho de acuidade visual ao longo do primeiro ano de vida quando
comparados a bebês que receberam fórmulas sem esses ácidos graxos. Os valores
de p foram estatisticamente significativos em múltiplos pontos de avaliação, e os
níveis de DHA nos eritrócitos dos bebês suplementados se aproximaram daqueles
observados em lactentes amamentados exclusivamente, grupo considerado
referência fisiológica4.
Em síntese, a literatura científica sustenta que o DHA é um componente nutricional
essencial para a maturação da visão nos primeiros anos de vida. Ensaios clínicos
bem conduzidos demonstram melhora significativa da acuidade visual em
lactentes que recebem DHA quando comparados àqueles que não recebem, com
perfil de segurança adequado e relevância clínica consistente. Trata-se, portanto,
de um nutriente cuja presença na alimentação infantil encontra respaldo na
literatura e no entendimento dos mecanismos biológicos do desenvolvimento
visual1-4.
Referências:
- Lewis TL, Maurer D. Multiple sensitive periods in human visual development.
Annu Rev Vis Sci. 2015;1:1-21.
- SanGiovanni JP, Chew EY. The role of omega 3 long chain polyunsaturated
fatty acids in health and disease of the retina. Prog Retin Eye Res.
2005;24(1):87-138.
- Birch EE, Carlson SE, Hoffman DR, Fitzgerald Gustafson KM, Fu VLN, Drover
JR, et al. The DIAMOND (DHA Intake And Measurement Of Neural
Development) Study: a double masked, randomized controlled clinical trial
of the maturation of infant visual acuity as a function of the dietary level of
docosahexaenoic acid. Am J Clin Nutr. 2010;91(4):848-859.
- Birch EE, Hoffman DR, Uauy R, Birch DG, Prestidge C. Visual acuity and the
essentiality of docosahexaenoic acid and arachidonic acid in the diet of term
infants. Pediatr Res. 1998;44(2):201-209