
A síndrome das pernas inquietas (SPI), ou doença de Willis-Ekbom, é um distúrbio sensório-motor relacionado ao sono caracterizado por um desejo de mover uma ou ambas as pernas e, às vezes, os braços quando imóveis.¹
Sua prevalência é de até 10% dos adultos e 20% dos idosos com 80 anos ou mais.¹ Também pode afetar crianças.¹ Esta patologia esta frequentemente associada à disestesia nas extremidades afetadas, com os sintomas aliviados pelo movimento.¹
Existem duas formas de SPI, primária (idiopática) e secundária (sintomática).² A síndrome das pernas inquietas primárias ocorre em adultos e possivelmente com história familiar, enquanto a SPI secundária ocorre em pacientes que sofriam principalmente de polineuropatia, doençneurodegenerativa, doença renal crônica, deficiência de ferro, gravidez e uso de medicamentos, tais como antipsicóticos e antidepressivos.² A SPI não afeta apenas a qualidade do sono, mas também induz transtornos de humor e diminui a qualidade de vida.²
Os mecanismos identificados incluem a deficiência de ferro cerebral (BID), desregulação da dopamina, estado hiperglutamatérico e estado hipoadenosinérgico.³ Mesmo que a deficiência sistêmica de ferro seja menos influente do que a BID no que diz respeito à patogênese da SPI, ainda é considerada um gatilho ambiental chave para o desenvolvimento da SPI.³ Sabe-se que a ferritina sérica é o parâmetro mais comumente usado para avaliar os estoques de ferro de ligação não heme.³
O International RLS Study Group (IRLSSG) recomenda a suplementação de ferro para indivíduos com um nível de ferritina sérica de <75 mcg/L ou saturação de transferrina (TSAT) < 45%.³ Além da suplementação de ferro, a farmacoterapia para SPI inclui agentes dopaminérgicos e ligantes alfa-2-delta, ambas consideradas como a terapia de primeira linha para SPI.³
Abaixo discutimos alguns artigos:
Na revisão de literatura conduzida por Popławska Domaszewicz et. al (2025) sobre os desafios para um diagnostico diferencial assertivo da síndrome das pernas inquietas (SPI), bem como as formas de mimetizar a SPI, observou-se a alta prevalência de associação entre anemia por deficiência de ferro como e síndrome das pernas inquietas (SPI), sendo considerada a deficiência de ferro como causa secundaria da SPI. A deficiência de ferro no cérebro desempenha um papel crucial na fisiopatologia da SPI, especialmente pelo ferro desempenhar um papel relevante junto aos neurotransmissores dopaminérgicos, atuando como regulador do transporte de dopamina, cofator da tirosina hidroxilase, regulador da proteína Thy-1 (uma molécula de adesão celular expressa em neurônios dopaminérgicos), servindo como componente do receptor D2 da dopamina, e também participando da modulação da resposta comportamental dopaminérgica.¹ Sabe-se que a transferrina, um transportador de ferro no sangue, é um indicador dos estoques de ferro do corpo. A saturação da transferrina fornece uma medida da quantidade de ferro ligada à transferrina. A ferritina armazena ferro nas células e é o primeiro marcador de baixos níveis de ferro no corpo. No entanto, como a transferrina é um reagente de fase aguda e pode ser falsamente elevada durante infecções agudas, ela sozinha pode não ser assertiva e a interpretação por si só não é confiável porque os níveis flutuam durante o dia. Portanto, recomenda-se que os estoques de ferro sejam interpretados juntamente com os dados de deficiência de ferro com ferritina e saturação de transferrina. Curiosamente, a deficiência de ferro sem anemia (IDWA) também é frequente identificada em pacientes com SPI.¹
A meta análise conduzida por Zhou X, et al, (2021), mostrou a eficácia do ferro na diminuição dos escores da SPI em pacientes com ferritina sérica inferior a 45 ug/L, no entanto, a eficácia do suplemento de ferro não pôde ser comprovada em pacientes com SPI com ferritina sérica superior a 45 ug/L. Ou seja, o suplemento de ferro provou ser eficaz em pacientes com SPI com baixo nível de ferritina sérica, apesar de não ter ficado claro os benéficos da suplementação em pacientes com níveis normais de ferritina. Além disso, dado que a insuficiência de ferro no cérebro é a patologia subjacente da SPI, deve-se notar que o objetivo da suplementação de ferro para pacientes com SPI é aumentar o nível de ferro no cérebro através do aumento do nível de armazenamento periférico de ferro. Portanto, o armazenamento de ferro cerebral, em vez do armazenamento periférico de ferro, deve ser considerado quando os médicos decidem usar suplemento de ferro para o tratamento da SPI.. ².
Segundo LI, Ying-Sheng et.al, (2023), a deficiência de ferro é um fator de risco para SPI, mas seus efeitos no desenvolvimento da exacerbação da síndrome das pernas inquietas (SPI) não são claros e uma das explicações seriam um efeito colateral iatrogênico induzido por agentes dopaminérgicos e por este motivo o objetivo de sua meta- análise foi elucidar a associação entre ferritina sérica e exacerbação da SPI³. Os autores conduziram revisão sistemática e meta-análise de, 6 estudos observacionais. Um total de 220 pacientes com SPI em exacerbação e 687 pacientes com SPI sem exacerbação foram incluídos. Os resultados mostraram que a SPI exacerbada foi significativamente associada a baixos níveis séricos de ferritina (p = 0,002), dose equivalente de levodopa (LED) altos (p = 0,026)³. Os autores concluíram que para pacientes com SPI com deficiência de ferro, os suplementos de ferro podem não apenas aliviar os sintomas fundamentais da SPI, mas também diminuir o risco de exacerbação da SPI. Além disso, ele ressalta que os agentes não dopaminérgicos também devem ser considerados como o tratamento de primeira linha para pacientes com níveis de ferritina persistentemente baixo ou para aqueles com SPI moderada à grave para prevenir a exacerbação da patologia³.
Referências Bibliográficas:
- POPŁAWSKA-DOMASZEWICZ, K.; ROTA, S.; QAMAR, M. A.; CHAUDHURI, K. R. The complexities in the differential diagnosis of restless legs syndrome (Willis-Ekbom disease). ExpertReview of Neurotherapeutics, Londres, v. 25, n. 2, p. 157–173, fev. 2025. DOI: 10.1080/14737175.2025.2450639. Epub em 14 jan. 2025. PMID: 39773238.
- Zhou X, Du J, Liang Y, Dai C, Zhao L, Liu X, Tan C, Mo L, Chen L. The efficacy and safety of pharmacological treatments for restless legs syndrome: systematic review and network meta-analysis. Front Neurosci. 2021 Oct 26;15:751643. doi: 10.3389/fnins.2021.751643. PMID: 34764852; PMCID: PMC8576256.
- LI, Ying-Sheng; YEH, Wei-Chih; HSU, Chung-Yao. Association of low serum ferritin levels with augmentation in patients with restless legs syndrome: a systematic review and meta-analysis. Sleep Medicine, 2023 Dec;112:173–180. doi: 10.1016/j.sleep.2023.10.022. Epub 2023 Oct 20.