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Como realizar o controle eficaz e seguro da rinite alérgica?

A rinite alérgica é uma doença inflamatória crônica da mucosa nasal, mediada por resposta imunológica de hipersensibilidade imediata (tipo I, imunoglobulina E [IgE] dependente), desencadeada após a exposição a alérgenos ambientais em indivíduos geneticamente predispostos, manifestando-se clinicamente por sintomas típicos, como obstrução nasal, rinorreia anterior e posterior, espirros, prurido nasal e hiposmia.1 Tal conceito é amplamente utilizado em diretrizes internacionais, como no Allergic Rhinitis and its Impact on Asthma (ARIA).2

O cloridrato de azelastina (anti-histamínico intranasal) e o propionato de

fluticasona (corticosteroide intranasal) atuam de forma sinérgica na redução da inflamação nasal e no bloqueio da cascata alérgica.3 Essa associação promove início de ação rápido, a partir de 5 minutos, e eficácia superior às monoterapias isoladas, o que é fundamental na pediatria.4

Estudos clínicos randomizados (ECRs) demonstraram que tal combinação proporciona maior redução do escore total de sintomas nasais (TNSS, do inglês Total Nasal Symptom Score) quando comparada ao uso isolado de corticosteroide ou anti-histamínico intranasal.5 Além disso, guidelines internacionais, como o ARIA, bem como o Consenso brasileiro de rinite alérgica da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), de 2024, recomendam a associação em pacientes com sintomas moderados a graves não controlados apenas com corticosteroides intranasais.4,6

No contexto pediátrico, a segurança é um ponto central: a azelastina pode apresentar retrogosto amargo transitório e, ocasionalmente, epistaxe discreta. O propionato de fluticasona, por sua vez, é consolidado na pediatria, com mínima biodisponibilidade sistêmica e reduzindo riscos de supressão do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA, do inglês hypothalamic-pituitary-adrenal) ou impacto no crescimento, quando utilizado conforme prescrição.7,8 A associação destes dois fármacos, cloridrato de azelastina + propionato de fluticasona, está aprovada para uso em crianças a partir de 6 anos, reforçando sua aplicabilidade clínica.9

 

 

 

Caso clínico

Paciente RSR, 8 anos, gênero masculino, asmático e com rinite alérgica persistente há 2 anos. Apresentava congestão nasal diária, espirros, prurido nasal e impacto no sono, com baixo rendimento escolar. Tais sintomas impactavam também a asma, embora o tratamento com associação de corticosteroide inalatório (CI) + broncodilatador de curta ação (SABA, do inglês short-acting beta-agonist) estivesse sendo mantido. Havia utilizado corticosteroide intranasal isolado, com melhora parcial. Iniciou-se tratamento com cloridrato de azelastina + propionato de fluticasona, na dose preconizada em bula. Exames: IgE = 300; Radioallergosorbent Test (RAST): pó doméstico (Hx2) = 17,30, epitélio de gato (E1) = 0,8, epitélio animal (Ex1) = 1,3, Dermatophagoides pteronyssinus (D1) = 25,1, Dermatophagoides farinae (D2) = 10,52 e ácaro Blomia tropicalis (D201) = 0,26.

 

Evolução: após poucos dias, houve relato de melhora sintomática expressiva, com sono reparador e maior disposição nas atividades escolares, bem como melhora dos sintomas da asma. Em 4 semanas, o controle foi considerado ótimo, com adesão adequada e ausência de eventos adversos (EAs) significativos, exceto leve sabor amargo inicial. O paciente retornou às atividades físicas diárias, melhorando o controle da asma e o índice de massa corporal (IMC), que estava elevado antes do tratamento. Seus exames, após 4

meses, apresentaram: IgE = 145 e RAST: HX2 = 2,4, E1 = 0,3, EX1= 0,35, D1 = 11,2, D2 = 8,3 e D201 < 0,1. O caso ilustra a eficácia e segurança da combinação, destacando o papel do cloridrato de azelastina + propionato de fluticasona no manejo da rinite alérgica pediátrica de difícil controle, especialmente nesta associação com asma.

 

Considerações finais

A associação do cloridrato de azelastina + propionato de fluticasona representa uma opção terapêutica eficaz e segura para crianças acima de 6 anos, proporcionando controle superior, rápido e sustentado dos sintomas da rinite alérgica. Seu perfil de segurança e a recomendação em diretrizes internacionais reforçam sua relevância na prática pediátrica.

 

Referências: 1. Roberts G, Pfaar O, Akdis CA, Ansotegui IJ, Durham SR, van Wijk RG, et al. EAACI Guidelines on allergen immunotherapy: allergic rhinoconjunctivitis. Allergy. 2018;73(4):765-98. 2. Bousquet J, Khaltaev N, Cruz AA, Denburg J, Fokkens WJ, Togias A, et al. Allergic Rhinitis and its Impact on Asthma (ARIA) 2008 update (in collaboration with the World Health Organization, GA(2)LEN and AllerGen). Allergy. 2008;63(Suppl 86):8–160. 3. Ratner PH, Hampel F, Van Bavel J, Amar NJ, Daftary P, Wheeler W, et al. Combination therapy with azelastine hydrochloride nasal spray and fluticasone propionate nasal spray in the treatment of patients with seasonal

allergic rhinitis. Ann Allergy Asthma Immunol. 2008;100(1):74-81. 4. Bousquet J, Schünemann HJ, Togias A, Bachert C, Erhola M, Hellings PW, et al; Allergic Rhinitis and Its Impact on Asthma Working Group. Next-generation llergic Rhinitis and Its Impact on Asthma (ARIA) guidelines for allergic rhinitis based on GRADE and real-world evidence. J Allergy Clin Immunol. 2020;145(1):70-80.e3 Erratum in: J Allergy Clin Immunol. 2022;149(6):2180. 5. Meltzer EO, LaForce C, Ratner P, Price D, Ginsberg D, Carr W. MP29-02 (a novel intranasal formulation of azelastine hydrochloride and fluticasone propionate) in the treatment of seasonal allergic rhinitis: a randomized, doubleblind, placebo-controlled trial of efficacy and safety. Allergy Asthma Proc. 2012;33(4):324-32. 6. Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. V Consenso brasileiro sobre rinites 2024. São Paulo: ABORL; 2024. 7. Berger W, Meltzer EO, Amar N, Fox AT, Just J, Muraro A, et al. Efficacy of MP-AzeFlu in children with seasonal allergic rhinitis: importance of paediatric symptom assessment. Pediatr Allergy Immunol. 2016;27(2):126-33. 8. Electronic Medicines Compendium [homepage na Internet]. Dymista 137 micrograms / 50 micrograms per actuation Nasal Spray [acesso em 13 jan 2026]. Disponível em: https://www.medicines.org.uk/emc/product/9450/smpc. 9. Dymista® [bula profissional]. Rio de Janeiro: Mylan Laboratórios Ltda.; 2021.

alergia e imunologia
otorrinolaringologia