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Transtorno do espectro autista (TEA)

 

 

DEFINIÇÃO

O transtorno do espectro autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento que se caracteriza por1:

  • Dificuldade na comunicação;
  • Dificuldade de interação social;
  • Comportamento restritivo ou repetitivo.

Possui gravidade e apresentação variáveis e é permanente1.

Os sintomas são geralmente identificados entre 12 e 24 meses de idade, mas o diagnóstico tende a ocorrer apenas aos 4 ou 5 anos de idade1.

O TEA consiste em uma situação de grande impacto, levando a diversas mudanças da rotina diária, com readaptação de responsabilidade dos pais, e gerando efeitos diversos no contexto ocupacional, financeiro e social2.

O diagnóstico precoce é essencial para a melhora do prognóstico, amenizando os sintomas e permitindo melhor qualidade de vida para os seus portadores1.

 

ETIOLOGIA

  • Evidências científicas sugerem que há muitos fatores ligados ao risco de autismo, incluindo fatores ambientais e genéticos3.
  • Pesquisas já comprovaram que a vacinação das crianças NÃO é a causa do autismo3.
  • Muitos estudos descreveram o aumento de espécies reativas de oxigênio no TEA e a ocorrência de danos reversíveis ou irreversíveis ao cérebro pelo estresse oxidativo4.

Vários biomarcadores de estresse oxidativo também foram identificados, e seus níveis parecem ligados à gravidade do TEA4, embora não haja biomarcadores específicos para o diagnóstico do autismo5.

 

EPIDEMIOLOGIA

O TEA é muito mais comum do que pensávamos anteriormente6.

Desde o primeiro estudo epidemiológico de 1966, a prevalência global de autismo aumentou, aproximadamente, trinta vezes6.

Algumas projeções mostram que até 2050 haverá um aumento de 42,7% em menores de 5 anos de idade com TEA nos EUA6.

Estima-se que, no mundo, 1 a cada 100 crianças apresenta TEA, embora estudos controlados tenham apresentado números mais altos.

Desconhece-se a prevalência em países de média e baixa renda3.

Um estudo recente mostrou que, nos EUA, a prevalência subiu de 1,1% em 2008 para 2,3% em 20185. Esse aumento é considerado ligado a5:

  • Alterações dos critérios diagnósticos;
  • Melhor desempenho das ferramentas de triagem e diagnóstico;
  • Aumento da conscientização do público.

 

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico do transtorno é puramente clínico, ou seja, por meio de anamnese e avaliação do desenvolvimento neuropsicomotor detalhadas e, de preferência, realizadas de maneira contínua e sempre pelo mesmo profissional2,7.

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que a triagem para o TEA seja realizada em todas as crianças entre 18 e 24 meses de idade, independentemente da presença de manifestações clínicas2.

O quadro 1 apresenta os critérios diagnósticos do TEA de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico, 5ª edição8. Para fins de diagnóstico, manifestações do quadro sintomatológico devem estar presentes até os 3 anos de idade7.

A. Déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, conforme manifestado pelo que segue, atualmente ou por história prévia;

1. Déficits na reciprocidade socioemocional, variando, por exemplo, de abordagem social anormal e dificuldade para estabelecer uma conversa normal a compartilhamento reduzido de interesses, emoções ou afeto, a dificuldade para iniciar ou responder a interações sociais.

2. Déficits nos comportamentos comunicativos não verbais usados para interação social, variando, por exemplo, de comunicação verbal e não verbal pouco integrada a anormalidade no contato visual e linguagem corporal ou déficits na compreensão e uso gestos, a ausência total de expressões faciais e comunicação não verbal.

3. Déficits para desenvolver, manter e compreender relacionamentos, variando, por exemplo, de dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais diversos a dificuldade em compartilhar brincadeiras imaginativas ou em fazer amigos, a ausência de interesse por pares.

B. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, conforme manifestado por pelo menos dois dos seguintes, atualmente ou por história prévia:

1. Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos (p. ex., estereotipias motoras simples, alinhar brinquedos ou girar objetos, ecolalia, frases idiossincráticas).

2. Insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal (p. ex., sofrimento extremo em relação a pequenas mudanças, dificuldades com transições, padrões rígidos de pensamento, rituais de saudação, necessidade de fazer o mesmo caminho ou ingerir os mesmos alimentos diariamente).

3. Interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade ou foco (p. ex., forte apego a ou preocupação com objetos incomuns, interesses excessivamente circunscritos ou perseverativos).

4. Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (p. ex., indiferença aparente a dor/temperatura, reação contrária a sons ou texturas específicas, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimento).

C. Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento (mas podem não se tornar plenamente manifestos até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas mais tarde na vida).
D. Os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo no presente.
E. Essas perturbações não são mais bem explicadas por deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento intelectual) ou por atraso global do desenvolvimento. Deficiência intelectual ou transtorno do espectro autista costumam ser comórbidos. Para se fazer o diagnóstico da comorbidade de transtorno do espectro autista e deficiência intelectual, a comunicação social deve estar abaixo do esperado para o nível geral do desenvolvimento.
Nota: Indivíduos com um diagnóstico do DSM-IV bem estabelecido de transtorno autista, transtorno de Asperger ou transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação devem receber o diagnóstico de transtorno do espectro autista. Indivíduos com déficits acentuados na comunicação social cujos sintomas, porém, não atendam, de outra forma, aos critérios de transtorno do espectro autista devem ser avaliados em relação a transtorno da comunicação social (pragmática).

Quadro 1. Critérios diagnósticos do transtorno do espectro autista. Adaptado de: American Psychiatric Association. DSM-5. 20148.

 

Desde a detecção dos sinais até o diagnóstico, são necessários o acompanhamento e a intervenção. O quadro 2 apresenta uma lista de sintomas de risco para o desenvolvimento de TEA. A presença dos sinais de alerta não implica, necessariamente, o diagnóstico de TEA7.

Idade Desenvolvimento normal Sinais de alerta
6 meses

• Emite sons;

• Mostra interesse em olhar rostos de pessoas, respondendo com sorriso, vocalização ou choro;

• Retribui sorriso.

• Poucas expressões faciais;

• Baixo contato ocular;

• Ausência de sorriso social;

• Pouco engajamento sociocomunicativo.

9 meses

• Sorri e ri enquanto olha para as pessoas;

• Interage com sorrisos, feições amorosas e outras expressões;

• Brinca de esconde-achou;

• Duplica sílabas;

• Não responde às tentativas de interação feita pelos outros quando estes sorriem, fazem caretas ou sons;

• Não busca interação emitindo sons, caretas ou sorrisos;

• Pouca imitação ou ausente;

• Não balbucia “mamã/papa”.

12 meses

• Imita gestos como dar tchau e bater palmas;

• Responde ao chamado do nome;

• Faz sons como se fosse conversar com ela mesma.

• Não balbucia/se expressa como bebê;

• Não apresenta gestos convencionais (dar tchau);

• Não responde ao seu nome quando chamada;

• Não aponta para coisas no intuito de compartilhar atenção;

• Não segue com o olhar os gestos que outros lhe fazem;

• Ausência de atenção compartilhada.

15 meses

• Troca com as pessoas muito sorrisos, sons e gestos em uma sequência;

• Executa gestos a pedido;

• Fala uma palavra.

• Não fala palavras que não sejam mama, papa e nome de membros da família.
18 meses

• Fala no mínimo 3 palavras;

• Reconhece claramente pessoas e partes do corpo quando nomeados;

• Faz brincadeiras simples de faz de conta.

• Não fala palavras (que não sejam ecolalia);

• Não expressa o que quer.

24 meses

• Brinca de faz de conta;

• Forma frase de duas palavras com sentido que não seja repetição;

• Gosta de estar com crianças da mesma idade e tem interesse em brincar conjuntamente;

• Procura por objetos familiares que estão fora do campo de visão quando perguntado.

• Não fala frase com duas palavras que não seja repetição.
36 meses

• Brincadeira simbólica com interpretação de personagens;

• Brinca com crianças da mesma idade, expressando preferências;

• Encadeia pensamento e ação nas brincadeiras (exemplo: estou com sono, vou dormir etc.);

• Responde a perguntas simples como “onde”, “o que”;

• Fala sobre interesses e sentimentos;

• Entende tempo passado e futuro.

• Não busca, ou evita quando procurada, interação com outras crianças.
Qualquer perda de linguagem, capacidade de comunicação ou habilidade social já adquirida em qualquer idade.

Quadro 2. Sinais de alerta risco para transtorno do espectro autista. Adaptado de: Salgado NM, et al. Research, Society and Development, 2022; 11(13): e5121113357481.

 

A identificação de sinais iniciais de problemas possibilita a instauração imediata de intervenções extremamente importantes, uma vez que os resultados positivos em resposta a terapias são tão mais significativos quanto mais precocemente instituídos7.

 

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Os seguintes transtornos devem estar incluídos no diagnóstico diferencial do transtorno do espectro do autismo (Quadro 3)9.

·         Atraso de desenvolvimento

·         Transtorno intelectual

·         Transtornos do espectro alcoólico fetal

·         Síndromes genéticas (síndrome do X frágil, esclerose tuberosa, síndrome de Angelman, síndrome de Rett)

·         Transtorno auditivo

·         Transtornos de saúde mental

·         Questões psicossociais (negligência, por exemplo)

·         Transtornos sensoriais

·         Transtorno da fala/linguagem

Quadro 3. Diagnóstico diferencial no transtorno do espectro autista. Adaptado de: Centers for Disease Control and Prevention. Making an autism diagnosis. Handout II: differential and etiologic diagnosis of autism spectrum9.

 

TRATAMENTO

As necessidades dos indivíduos com TEA  requerem uma variedade de serviços integrados, incluindo a promoção de saúde, cuidados e reabilitação. É essencial o estabelecimento de colaboração entre o setor de saúde e a educação, assistência social e mercado de trabalho para o atendimento ideal das necessidades dos portadores de TEA e suas famílias3.

O uso de antioxidantes4

Como a exposição crônica às espécies reativas de oxigênio podem causar neuroinflamação e dano neuronal, a prevenção do estresse oxidativo poderia reduzir o dano cerebral. Dessa forma, o uso de antioxidantes exógenos poderia auxiliar os portadores de TEA4.

Um estudo prospectivo com 12 crianças com TEA grave utilizou um extrato comercialmente disponível de óleo de Schizochytrium sp. Contém 200 mg de ácido docosa-hexaenoico (DHA) e 2 mg de ácido eicosapentaenoico (EPA), que devem ser associados com um complexo multivitamínico e mineral por 12 semanas. Os participantes foram avaliados por meio de escalas validadas (Escala de Avaliação do Autismo na Infância [CARS] e Sistema de Avaliação de Comportamento Adaptativo, terceira edição [ABAS-3])4.

Os dados preliminares sugerem que o uso contínuo de óleo marinho de Schizochytrium sp. e o complexo multivitamínico e mineral é seguro e pode ajudar no controle dos sintomas característicos das crianças com TEA4.

 Referências

  1. Salgado NM, Pantoja JC, Viana RPF, Pereira RGV. Transtorno do Espectro Autista em Crianças: Uma Revisão Sistemática sobre o Aumento da Incidência e Diagnóstico. Res Soc Develop. 2022;11(13):e512111335748.
  2. Rocha VP, da Cruz AVC, Ferreira CAC de C, Barbosa AB, Brandão LL, Lima PLS, et al. Diagnóstico tardio de Transtorno do Espectro Autista e seus impactos sociais e clínicos. Braz J Health Rev [Internet]. 2023 Apr. 5 [cited 2023 Dec. 10;6(2):6962-70. 
  3. World Health Organization. Autism. 15 nov. 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/autism-spectrum-disorders. Acesso em: 11 dez. 2023.
  4. Salmazo GF, Oliveira MAB, Marson FAL, Sciani JM. Preliminary analysis of a clinical trial of children with autism spectrum disorder treated with DHA-rich marine Schizochytrium sp. oil and multi-vitamin/mineral complex. Res Autism Spectrum Disord. 2023;109:102282.
  5. Hirota T, King BH. Autism Spectrum Disorder: A Review. 2023 Jan 10;329(2):157-68.
  6. Almeida ML, Neves AS. A Popularização Diagnóstica do Autismo: uma Falsa Epidemia? Psicol Cienc Prof. 2020;40:e180896.
  7. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Transtornos do Espectro do Autismo (TEA). Brasília: Ministério da Saúde; 2014.
  8. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais [recurso eletrônico]: DSM-5. Porto Alegre: Artmed; 2014.
  9. Centers for Disease Control and Prevention. Making an autism diagnosis. Handout II: differential and etiologic diagnosis of autism spectrum. Disponível em: https://www.cdc.gov/ncbddd/actearly/autism/case-modules/pdf/diagnosis/Differential-and-Etiologic-Diagnosis-of-Autism-Spectrum-Disorder.pdf. Acesso em: 11 dez. 2023.

 

 

 

 

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